sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

II DOMINGO DO ADVENTO - LITURGIA

Primeiro olhar
O Tempo Natalino, iniciado no Advento, se traduz em uma grande espiritualidade do caminho, que conduz à solidão do deserto. Peregrinação e deserto são atitudes que constroem e fortalecem a esperança de encontrar-se com Deus.

ILUMINADOS PELA PALAVRA

            Onde está Deus? Quando acontecerá a volta do Senhor? São questões que iluminam a reflexão de Pedro diante de uma comunidade que começa a duvidar da promessa divina e da própria Palavra de Deus (2ª leitura). Nas questões embute-se a dificuldade de acolher o desafio pessoal de se colocar a caminho na procura de Deus e com ele se encontrar. Dificuldade, igualmente, de lidar com uma esperança “invisível” de realização na rotina que se repete e nada muda. Pedro explica que a esperança de caminhar em busca de Deus não acontece com cálculos matemáticos, porque para Deus “um dia é como mil anos e mil anos como um dia” (2ª leitura). O encontro com Deus não é tão visível como gostaríamos e nem é novidadeiro, porque acontece na realidade do cotidiano. É na realidade diária que os caminhos podem ser planos ou montanhosos, retos ou sinuosos (1ª leitura e Evangelho). É na realidade cotidiana que se propõe o caminho da conversão pessoal, o caminho que conduz à uma nova terra, onde a glória divina habita e a fidelidade ao projeto divino é realidade (2ª leitura e salmo responsorial).
            Onde está Deus? A pergunta vem sendo repetida nos séculos. Muitos fizeram esse caminho e se encontraram com Deus. Muitos entraram nesse caminho, mas o abandonaram ao se depararem com a necessidade de peregrinar pelo deserto. Não que Deus esteja do outro lado, num deserto distante (Cf. Dt 30,13), mas a experiência do deserto não é excluída a quem pretende encontrar-se com Deus. A vida humana não suporta exilar-se na rotina (1ª leitura) porque constantemente clama por algo mais... é nessa busca do algo mais que nos deparamos com o deserto e com a solidão: “aplainai na solidão a estrada de nosso Deus” (1ª leitura). Entrar no deserto, na solidão, naquele espaço e momento, no qual fico sozinho comigo mesmo, é o caminho existencial que conduz ao encontro com Deus. No deserto existencial não existem caminhos. Eles precisam ser construídos. Construir esse caminho é refazer pessoalmente a experiência do Êxodo, abandonando a realidade opressora pela serenidade de viver livre. O Êxodo leva-nos a experenciar como Deus acompanha a caminhada sem impedir a realidade de vales e montanhas do caminho (1ª leitura e Evangelho). Aqui está o segredo da vida, aqui está a finalidade da conversão: quem busca o rosto de Deus, quem pretende encontrá-lo precisa entrar no deserto para aprender a aplainar caminhos; mudar de vida.
            João Batista levou a sério a profecia de Isaías de aplainar, na solidão, a estrada de Deus (1ª leitura e Evangelho); foi para a solidão do deserto. Antes de pregar a conversão foi fazer experiência de solidão e de deserto para encontrar-se consigo e com Deus. A presença de João Batista, na assembléia desse Domingo, incentiva a busca da solidão do deserto, onde o silêncio e o nada educam para o “Todo”, e para a necessidade de mergulhar no perdão, no Batismo do perdão renovador (Evangelho). Perdoar não é uma declaração verbal, é início de um caminho espiritual, é o primeiro passo para que o mal não contamine o coração e impeça construir caminhos retos e plainos (Evangelho).


ILUMINADOS PELAS ORAÇÕES (eucologia da missa)

            A súplica de Isaías torna-se a primeira intenção dessa celebração, suplicando que Deus console seu povo, especialmente aqueles que caminham e vivem na esperança sincera de com ele se encontrar. Outra intenção, é interceder a graça divina para que cada celebrante se coloque no caminho da conversão e viva a experiência de construir, na solidão, o caminho que conduza ao encontro com Deus.
            A Igreja reza essa celebração proclamando a alegria de saber que Deus vem para salvar o seu povo (antífona de entrada e antífona de comunhão) e, solicita aos celebrantes que preparem o encontro com o Senhor para participarem de sua Salvação (aclamação ao Evangelho). É uma Igreja que reza essa celebração para que os obstáculos da vida não impeçam o encontro com Deus (oração do dia), pois ele nos acolhe em sua misericórdia (sobre as oferendas) e nos ajuda a usar com sabedoria os valores terrenos sem desprezar aqueles eternos (depois da comunhão).

Proclamar a Oração eucarística II com o Prefácio do Advento II
Tema: “Cristo, Senhor e Juiz da História” — proclamação de que quando o Senhor voltar surgirá um novo céu e uma nova terra” (2L).


ILUMINADOS PELA VIDA

            O Advento se pauta na espiritualidade iluminada pela esperança. Na esperança encontra-se a busca, a procura, a expectativa de que algo novo acontecerá. A esperança tem consigo o novo que ainda não aconteceu, mas poderá acontecer. É nesse tempo de espera que reside o caminho da espiritualidade do Advento com a possibilidade do crescimento interior e do equilíbrio pessoal. Os textos da celebração desse Domingo relacionam esse tempo com o deserto, local sem muitos atrativos, enganoso para  caminheiros que podem ser conduzidos a lugar algum. O deserto é, freqüentemente, paisagem bíblica do encontro com Deus e consigo mesmo. Por isso, o deserto é local de conversão, onde se permite a Deus conduzir por caminhos que levem à realização existencial. Esse é o motivo pelo qual a Escritura insiste tanto em ir ao deserto; experiência pela qual passou o próprio Jesus.
            Isaías diz que essa experiência pessoal é feita na solidão (1ª leitura). Fala da solidão como experiência positiva, imprescindível para o crescimento espiritual. Solidão parece ter parentagem etimológica de “solis+ deo” = “estar sozinho com Deus”. Por isso, no caminho da espiritualidade, a solidão é caminho de esperança que conduz ao encontro com Deus. É no deserto que entramos na solidão e é em solidão que caminhamos pelo deserto. A solidão é exercício, é estado de espírito, presente em todo caminho da vida espiritual com momentos de questionamentos, aridez, dúvidas e, em alguns casos, revolta. No caminho da espiritualidade, o primeiro movimento da solidão nem sempre é tranqüilo, porque nele nos deparamos com a vida pessoal e, nem sempre gostamos do que vemos. Uma grande parte desiste, outros acolhem o convite de João Batista: mergulham no perdão e se convertam. Numa palavra, colocam o sentido e o equilíbrio da existência pessoal nos caminhos de Deus.
            O deserto é uma realidade dura, difícil, mas necessária. Não existe conversão sem a passagem pelo deserto. No processo de se encontrar com Deus, técnicas de auto-convencimento de que Deus habita em mim são somente ponto de partida, uma espécie de convencimento espiritual para encobrir medos existenciais. Depois de passar pela experiência do deserto e se converter, Paulo confessa que nada mais o abalava, porque sua vida caminhava com Cristo; aprendera a viver na fartura e na miséria (Fl 4,12). Encontrara o equilíbrio existencial em Cristo. Ele vivia bem consigo mesmo porque se deixou guiar pelo caminho de Jesus, no discipulado.
            A espiritualidade do Advento destaca a importância do tempo de espera. Por isso, não pode ser tempo vazio, que findará no nada e na inutilidade, como o servo que enterrou o talento recebido (Mt 25,24). O tempo de Advento é convite para refletir como ocupamos esse tempo de espera, se nos decidimos a fazer o caminho no deserto ou, para quem já nele caminha, como esse caminho está sendo feito.
(Francisco Régis)


CONTEXTO CELEBRATIVO

Se cada um de nós é caminheiro que busca a realização existencial, precisamos ir ao deserto para encontrar-nos com Deus e consigo mesmo. É no deserto que temos uma visão clara de como caminhamos e em quais caminhos precisamos converter, tornando-os planos e retos, condição para encontrar-se com Deus.

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