Primeiro olhar
O Tempo Natalino, iniciado
no Advento, se traduz em uma grande espiritualidade do caminho, que conduz à
solidão do deserto. Peregrinação e deserto são atitudes que constroem e fortalecem
a esperança de encontrar-se com Deus.
ILUMINADOS PELA PALAVRA
Onde
está Deus? Quando acontecerá a volta do Senhor? São questões que iluminam a
reflexão de Pedro diante de uma comunidade que começa a duvidar da promessa
divina e da própria Palavra de Deus (2ª leitura).
Nas questões embute-se a dificuldade de acolher o desafio pessoal de se colocar
a caminho na procura de Deus e com ele se encontrar. Dificuldade, igualmente,
de lidar com uma esperança “invisível” de realização na rotina que se repete e
nada muda. Pedro explica que a esperança de caminhar em busca de Deus não
acontece com cálculos matemáticos, porque para Deus “um dia é como mil anos e mil anos como um dia” (2ª leitura). O encontro com Deus não é tão
visível como gostaríamos e nem é novidadeiro, porque acontece na realidade do
cotidiano. É na realidade diária que os caminhos podem ser planos ou
montanhosos, retos ou sinuosos (1ª leitura e
Evangelho). É na realidade cotidiana que se propõe o caminho da
conversão pessoal, o caminho que conduz à uma nova terra, onde a glória divina
habita e a fidelidade ao projeto divino é realidade (2ª leitura e salmo responsorial).
Onde
está Deus? A pergunta vem sendo repetida nos séculos. Muitos fizeram esse caminho
e se encontraram com Deus. Muitos entraram nesse caminho, mas o abandonaram ao
se depararem com a necessidade de peregrinar pelo deserto. Não que Deus esteja
do outro lado, num deserto distante (Cf. Dt
30,13), mas a experiência do deserto não é excluída a quem pretende
encontrar-se com Deus. A vida humana não suporta exilar-se na rotina (1ª leitura) porque constantemente clama por
algo mais... é nessa busca do algo mais que nos deparamos com o deserto e com a
solidão: “aplainai na solidão a estrada
de nosso Deus” (1ª leitura). Entrar
no deserto, na solidão, naquele espaço e momento, no qual fico sozinho comigo
mesmo, é o caminho existencial que conduz ao encontro com Deus. No deserto existencial
não existem caminhos. Eles precisam ser construídos. Construir esse caminho é
refazer pessoalmente a experiência do Êxodo, abandonando a realidade opressora
pela serenidade de viver livre. O Êxodo leva-nos a experenciar como Deus
acompanha a caminhada sem impedir a realidade de vales e montanhas do caminho (1ª leitura e Evangelho). Aqui está o segredo da
vida, aqui está a finalidade da conversão: quem busca o rosto de Deus, quem
pretende encontrá-lo precisa entrar no deserto para aprender a aplainar
caminhos; mudar de vida.
João
Batista levou a sério a profecia de Isaías de aplainar, na solidão, a estrada
de Deus (1ª leitura e Evangelho); foi
para a solidão do deserto. Antes de pregar a conversão foi fazer experiência de
solidão e de deserto para encontrar-se consigo e com Deus. A presença de João
Batista, na assembléia desse Domingo, incentiva a busca da solidão do deserto,
onde o silêncio e o nada educam para o “Todo”, e para a necessidade de mergulhar
no perdão, no Batismo do perdão renovador (Evangelho).
Perdoar não é uma declaração verbal, é início de um caminho espiritual, é o
primeiro passo para que o mal não contamine o coração e impeça construir
caminhos retos e plainos (Evangelho).
ILUMINADOS PELAS ORAÇÕES (eucologia da missa)
A
súplica de Isaías torna-se a primeira intenção dessa celebração, suplicando que
Deus console seu povo, especialmente aqueles que caminham e vivem na esperança
sincera de com ele se encontrar. Outra intenção, é interceder a graça divina
para que cada celebrante se coloque no caminho da conversão e viva a
experiência de construir, na solidão, o caminho que conduza ao encontro com
Deus.
A
Igreja reza essa celebração proclamando a alegria de saber que Deus vem para
salvar o seu povo (antífona de entrada e
antífona de comunhão) e, solicita aos celebrantes que preparem o
encontro com o Senhor para participarem de sua Salvação (aclamação ao Evangelho). É uma Igreja que reza essa celebração para
que os obstáculos da vida não impeçam o encontro com Deus (oração do dia), pois ele nos acolhe em sua
misericórdia (sobre as oferendas) e nos
ajuda a usar com sabedoria os valores terrenos sem desprezar aqueles eternos (depois da comunhão).
Proclamar a Oração eucarística
II com o Prefácio do Advento II
Tema: “Cristo, Senhor e Juiz da História” — proclamação de que
quando o Senhor voltar surgirá um novo céu e uma nova terra” (2L).
ILUMINADOS PELA VIDA
O
Advento se pauta na espiritualidade iluminada pela esperança. Na esperança encontra-se
a busca, a procura, a expectativa de que algo novo acontecerá. A esperança tem
consigo o novo que ainda não aconteceu, mas poderá acontecer. É nesse tempo de
espera que reside o caminho da espiritualidade do Advento com a possibilidade
do crescimento interior e do equilíbrio pessoal. Os textos da celebração desse
Domingo relacionam esse tempo com o deserto, local sem muitos atrativos,
enganoso para caminheiros que podem ser
conduzidos a lugar algum. O deserto é, freqüentemente, paisagem bíblica do
encontro com Deus e consigo mesmo. Por isso, o deserto é local de conversão, onde
se permite a Deus conduzir por caminhos que levem à realização existencial.
Esse é o motivo pelo qual a Escritura insiste tanto em ir ao deserto;
experiência pela qual passou o próprio Jesus.
Isaías
diz que essa experiência pessoal é feita na solidão (1ª leitura). Fala da solidão como experiência positiva,
imprescindível para o crescimento espiritual. Solidão parece ter parentagem etimológica
de “solis+ deo” = “estar sozinho com
Deus”. Por isso, no caminho da espiritualidade, a solidão é caminho de
esperança que conduz ao encontro com Deus. É no deserto que entramos na solidão
e é em solidão que caminhamos pelo deserto. A solidão é exercício, é estado de
espírito, presente em todo caminho da vida espiritual com momentos de
questionamentos, aridez, dúvidas e, em alguns casos, revolta. No caminho da
espiritualidade, o primeiro movimento da solidão nem sempre é tranqüilo, porque
nele nos deparamos com a vida pessoal e, nem sempre gostamos do que vemos. Uma
grande parte desiste, outros acolhem o convite de João Batista: mergulham no
perdão e se convertam. Numa palavra, colocam o sentido e o equilíbrio da
existência pessoal nos caminhos de Deus.
O
deserto é uma realidade dura, difícil, mas necessária. Não existe conversão sem
a passagem pelo deserto. No processo de se encontrar com Deus, técnicas de
auto-convencimento de que Deus habita em mim são somente ponto de partida, uma
espécie de convencimento espiritual para encobrir medos existenciais. Depois de
passar pela experiência do deserto e se converter, Paulo confessa que nada mais
o abalava, porque sua vida caminhava com Cristo; aprendera a viver na fartura e
na miséria (Fl 4,12). Encontrara o
equilíbrio existencial em Cristo. Ele vivia bem consigo mesmo porque se deixou
guiar pelo caminho de Jesus, no discipulado.
A
espiritualidade do Advento destaca a importância do tempo de espera. Por isso,
não pode ser tempo vazio, que findará no nada e na inutilidade, como o servo
que enterrou o talento recebido (Mt 25,24).
O tempo de Advento é convite para refletir como ocupamos esse tempo de espera,
se nos decidimos a fazer o caminho no deserto ou, para quem já nele caminha,
como esse caminho está sendo feito.
(Francisco Régis)
CONTEXTO CELEBRATIVO
Se cada um de nós é caminheiro
que busca a realização existencial, precisamos ir ao deserto para encontrar-nos
com Deus e consigo mesmo. É no deserto que temos uma visão clara de como
caminhamos e em quais caminhos precisamos converter, tornando-os planos e
retos, condição para encontrar-se com Deus.
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